Trinta

* por Brancaleone

 

Faço trinta.

e é assim quase indolor

repente, piscadela.

Algumas marcas no rosto e nas costas

e umas tantas gravuras

impressas, à meia-luz do espírito,

faço trinta.

Supõe-se que estive aprendendo coisas

estaria uma década à frente

do rapaz cheio de tempo.

Por trás das marcas de corpo, de calendário

sigo rapaz, e sim e sempre

faço trinta

“Como o fizera de fato há tempos”

– protesta o corpo.

Crise de bronquite não impedirá

que eu atravesse a noite

e irrompa em uma nova década.

Sou decidido quanto a isso:

é maio, é 30, é noite

e, sim, eu faço.

Faço trinta como quem tem cócegas:

Incomodado, sinto prazer.

Faço trinta e já posso amar

lutar, caminhar

e até chorar como um homem.

 

Sabemos quase nada de nosso tímido colaborador Brancaleone. Acusado de haver cometido uma produção de poemas de qualidade muito questionável, prefere adotar nome e rosto de um personagem que admira. Suspeita-se de que seja aquele rapaz que chegou sozinho ao bar no último sábado. Mas há quem diga que é casado e já usou bigode. O fato é que, a julgar pela produção que continua surgindo, ele ainda age, provavelmente no lusco-fusco, manejando com certa leviandade sua esferográfica azul.