Um “até breve” à brasilidade de Fraga

por Isadora Penholato

Todos sabem que, longe de ser alguém que realmente entende de moda, eu sou alguém que gosta de ler artigos da área e estar sempre de olho em tendências e novos conceitos (a famosa “curiosa”). Esta semana, navegando no site do jornal Folha de São Paulo – um pouco à busca de algo que inspirasse uma nova matéria pro Farol Cultural –, deparei-me com esta notícia: “A moda acabou”, diz Ronaldo Fraga, que deixa a SPFW. Acessei a matéria, li as poucas linhas e fiquei com aquilo na cabeça.

Já tinha ouvido falar do estilista, mas não conhecia a fundo seu trabalho. Até hoje. Novamente, a notícia da saída de Fraga da SPFW – São Paulo Fashion Week – apareceu diante dos meus olhos, dessa vez na Revista Criativa. Era um sinal divino. Eu deveria ir atrás disso. Fui, pois. E me surpreendi.

O estilista Ronaldo Fraga, que anunciou, na última semana, sua saída da temporada inverno da SPFW.

Ronaldo Fraga é mineiro de BH. Formou-se pela Universidade Federal de Minas Gerais e foi ao exterior: em Nova York, estudou na Parson’s School of Design; em Londres, foi à famosa Saint Martins. Sua primeira coleção foi lançada em 1996 e não demorou a estar entre o grupo de marcas da São Paulo Fashion Week, o que aconteceu no ano de 2001.

Até aqui, vemos a trajetória de um estilista como outros tantos. Mas eu disse que ele havia me surpreendido, não disse? Lembram que, na minha primeira matéria para a coluna de moda, eu disse que queria mostrar que moda não é algo fútil? Pois bem, esse estilista em particular trouxe de volta aquela ideia que havia ficado em algum lugar na minha mente.

Comecemos com o fato de que suas coleções nos fazem conhecer um pouquinho mais do nosso Brasil, como mostra esse trechinho do seu site:

Em todos os desfiles, estabelece diálogo da cultura brasileira com o mundo contemporâneo. O universo da obra de Carlos Drummond de Andrade, O sertão de Guimarães Rosa, a cerâmica das bonecas do Jequitinhonha, o legado da cantora Nara leão, foram temas em coleções – manifesto que sempre são citadas pela crítica como marcos do São Paulo Fashion Week e da estória da Moda no Brasil.

Ronaldo abordou a morte da estilista Zuzu Angel (verão 2001-2002); levou as “Viagens de Gulliver” (inverno 2003) e “Todo Mundo e Ninguém” (inverno de 2005), de Carlos Drummond de Andrade, para as passarelas; mostrou Nara Leão (verão 2007-2008) para o Japão; e tratou da polêmica transposição do Rio São Francisco (verão 2008-2009).

Como se não bastasse, inspirou-se em “GIZ”, espetáculo de Álvaro Apocalypse (artista mineiro que faleceu em 2003) que trata do tema “abandono” e criou “Tudo é Risco de Giz”, em que trouxe idosos e crianças para as passarelas. Criou a sua Disneylândia, inspirada na América Latina, no verão 2009-2010. E, em seu último desfile, “O Cronista do Brasil”, homenageou Noel Rosa.

“Tudo é Risco de Giz” – foto do blog de Ronaldo Fraga

“Rio São” – foto do blog de Ronaldo Fraga

É por tudo isso que considero Ronaldo Fraga a maior prova de que a moda reflete quem somos, a que lugar pertencemos e qual é a nossa história, fazendo-nos pensar sobre o mundo que nos rodeia.

E, pra comprovar tudo isso que disse, sei que não bastam as minhas palavras e as imagens. Por isso, dois achados do Youtube: o desfile “Rio São”, que traz a transposição do São Francisco pra passarela, e “O Cronista do Brasil”, que homenageia Noel.

Imagem de Amostra do You Tube

Rio São – um vídeo sobre o desfile que fala da transposição do Rio São Francisco

Imagem de Amostra do You Tube

Esse vídeo, disponibilizado pela Fashion Forward, traz o desfile do SPFW – verão 2012.

Mas essa brasilidade toda vai entrar de férias. Ronaldo decidiu dar um tempo e não desfilar na temporada de inverno da SPFW. Como ele mesmo diz na carta (que pude ler no site da Revista Criativa e que você também pode ler clicando aqui): “parar para respirar, para observar o entorno, para investigar outros suportes para o pensar, o expor, o produzir e o comercializar moda no Brasil”. Entre seus planos, o livro “Caderno de Roupas, Memórias e Croquis”.

Fica a tristeza de saber que não teremos, em 2012, a genialidade de Ronaldo Fraga nas passarelas e a ansiedade de conferir, no ano que já está chegando, esse livro que está por vir.

Abraços, um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de farolagens pra vocês! :)